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Universidade, cinema e humanização docente

Autor: Rômulo Souza

Autor: Rômulo Souza

Durante o meu percurso de doutoramento, junto à Universidade de São Paulo, tive a oportunidade de participar de inúmeros momentos de formação e capacitação  para docência no ensino superior. Um desses tantos e ricos momentos, organizado pela pró-reitoria de graduação dessa universidade, consistiu em um workshop denominado “Perspectivas humanísticas na docência”. Nele, o professor doutor e médico Pablo Gonzáles Blasco – de quem me tornei fã – trouxe para debate a questão da humanização no ensino universitário.

Em essência, a proposta do professor Pablo consiste em aplicar a sua experiência formativa relacionada à humanização de médicos no contexto do ensino superior, focalizando, especialmente, os docentes e suas relações com os alunos. A metodologia de trabalho adotada por ele não poderia ser – a meu ver – mais prazerosa: assistir a trechos de filmes que deflagram momentos em que os personagens se mostram nada mais… nada menos…  que… humanos.

Fundamental durante a sessão é motivar os docentes, expectadores, a refletirem sobre as suas próprias atitudes, sendo essa reflexão o cerne do processo humanizante. Como ressalta o professor:

De modo talvez excessivamente simples, pode-se dizer que humanizar é, em primeiro lugar, lembrar ao profissional que ele é um ser humano, e que o paciente [ou o aluno!*] também é. Algo evidente embora esquecido com muita freqüência. E a reflexão traz isto à tona com vigor. Se o cinema nos ajuda a pensar e a refletir sobre as coisas essenciais da vida, converte-se em recurso educacional de valor para formar pessoas. (BLASCO, 2017)

Recentemente, assisti ao filme Today’s Special (2009), do diretor David Kaplan. O filme conta a história de Samir, um sous-chef de origem indiana que assume o restaurante da família após se decepcionar com o chef e largar o seu emprego em um conceituado restaurante de culinária francesa. Em sua nova empresa, a frente do negócio da família, ele terá a ajuda de Akbar, um taxista que o inicia na cozinha indiana.

Em uma das cenas que mais me chamaram a atenção, e que certamente estaria na minha lista de cenas em uma oficina de humanização docente, Samir se dirige a Akbar e desabafa: “Sabe, eu não sei porque estou fazendo isso. Eu sou um chef. Não preciso aprender a cozinhar com um taxista.” Após refletir sobre o que acabara de dizer, arrepende-se, volta-se a Akbar e se desculpa. O taxista, que se manteve com uma sábia postura de compreensão perante o comentário, aceita as desculpas encorajando-o a viver a vida, uma vez que, ao contrário do falecido irmão de Samir, ele ainda tinha a chance de aproveitá-la. Importante notar que, imediatamente antes do ocorrido, os dois conversavam sobre a morte do irmão de Samir.

Cena do filme Today’s Special (2009)

Lembro-me que um dos exemplos destacados por Blasco durante a oficina se referia a atitudes de docentes e orientadores frente a relatos e comentários de alunos e alunas sobre infortúnios familiares ou pessoais que acabaram de vivenciar. Conversar sobre a morte de um amigo ou ente querido, ou oferecer compaixao perante esse tipo de experiência, poderá ser mais humano naquele momento do que ignorar o fato e exigir que o aluno se concentre no trabalho.

Notas

*comentário nosso!

Referências

BLASCO, Pablo Gonzales. CINEMA, HUMANIZAÇÃO E EDUCAÇÃO EM SAÚDE. Revista de Pesquisa Interdisciplinar, Cajazeiras, v. 1, n. 1, 03-20, jan/jul. de 2017 http://www.pablogonzalezblasco.com.br/wp-content/uploads/2017/04/cinema_humanizac%CC%A7a%CC%83o_e_educacao_em_saude.pdf

BLASCO PG, BENEDETTO MAC, GARCIA DSO, MORETO G, RONCOLETTA AFT, TROLL T. Cinema for educating global doctors: from emotions to reflection, approaching the complexity of the Human Being. Primary Care.2010. 10: 45 – 47.

BLASCO PG; GONZÁLEZ-BLASCO M, LEVITES MR, MORETO G, TYSINGER JW. Educating through Movies: How Hollywood Fosters Reflection. Creative Education . v.2, p.174- 180, 2011

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2 Responses to "Universidade, cinema e humanização docente"

  1. Júnia Cruz diz:

    Muito bom, Rômulo! Interessante esta ideia de propor o viés humanístico do cinema na cena universitária. Docentes e discentes poderiam vivenciar mais entrosamento e empatia, e não tanto distanciamento.

    1. Romulo diz:

      Muito obrigado pelo comentário, Júnia! Eu também acho que a dinâmica proposta pelo professor Pablo pode contribuir muito pra isso. Vejo aí um bom caminho!

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